Primeiros passos: a relação resposta-consequência na Análise do Comportamento

Primeiros passos: a relação resposta-consequência na Análise do Comportamento

No senso comum é muito frequente usarmos a expressão “arque com as consequências de suas ações, de seus atos” ou equivalentes, não é mesmo? Geralmente essa expressão é utilizada em momentos e situações em que é necessário chamar a atenção de alguém para possíveis consequências ruins ou prejudiciais de uma ação específica. Para que você entenda a importância da CONSEQUÊNCIA na noção de comportamento da Análise do Comportamento, preciso que você esqueça essa conotação… Esqueça o juízo de valor possivelmente negativo dessa palavra.

Explico porque. Na Análise do Comportamento, consequências são mudanças produzidas no ambiente em função da ação (ou ações) de uma pessoa. Essas mudanças podem ser de qualquer tipo, sem juízo de valor positivo ou negativo. Alguns exemplos:

  • Ao ser questionada pela professora em sala de aula, uma menina responde a pergunta de forma correta e a professora a elogia diante dos colegas – A ação da menina (responder corretamente a pergunta) produziu uma mudança em seu ambiente (elogio da professora);
  • Um menino quebra o vaso preferido de sua mãe e ela decide privá-lo do acesso ao videogame por um mês – A ação do menino (quebrar o vaso) produziu uma mudança em seu ambiente (retirada do videogame).

No primeiro exemplo, o tipo de mudança resultante da ação da menina foi um acréscimo de estímulo ao ambiente (elogio). No segundo, a mudança resultante da ação do menino foi a remoção de um estímulo do ambiente (ausência do videogame). Em ambos, os estímulos são consequências das respostas da menina e do menino, respectivamente.

Mas não para por aí. Se, ao ser elogiada a primeira vez, a menina então tenta quase sempre responder às perguntas feitas pela professora, eu posso dizer que a consequência (no caso, o elogio) também produziu uma mudança no comportamento da menina. O mesmo vale para o exemplo do menino que quebrou o vaso. Se, após a retirada do videogame, ele passa a evitar o ambiente em que estava o vaso ou tomar mais cuidado ao passar por outros objetos preferidos de sua mãe, eu também posso dizer que essa consequência mudou o comportamento do menino, certo? Essa relação entre resposta e consequência caracteriza um tipo de comportamento: comportamento operante.

Você consegue perceber a peculiaridade dele? Note que, por definição, no comportamento operante o indivíduo interage ativamente com o ambiente, produzindo mudanças no mesmo. Na contrapartida, essas mudanças produzidas no ambiente também acabam produzindo mudanças nas próprias respostas do indivíduo (ou em características delas). A relação entre resposta e consequência que caracteriza o comportamento operante é extremamente complexa e, sem dúvida, não se esgota com os exemplos que acabei de dar. Também não se esgota somente com o exame que acabei de explicitar. Entretanto, para você que é pai ou mãe de uma criança com TEA, basta entender o quanto as consequências são importantes no desenvolvimento das habilidades de uma pessoa. Elas são um dos aspectos fundamentais da terapia ABA. É por meio delas que uma parte significativa dos comportamentos de um indivíduo é selecionada.

Provavelmente você já ouviu falar em reforçador/reforçadores. Estímulos reforçadores são consequências produzidas por certas respostas e que, por sua vez, produzem uma mudança específica nas próprias respostas do indivíduo: aumentam a frequência delas. Voltando ao primeiro exemplo. Se a menina se engajar em responder a questões feitas pela professora inúmeras vezes, poderemos dizer que o elogio passou a ser um reforçador para essa resposta da menina. Mas só poderemos fazer essa afirmação se a ação de responder perguntas aumentar de frequência (passar a fazer parte do repertório da menina).

Na minha prática profissional observo muita confusão sobre o que são reforçadores e acredito que boa parte dela seja resultado de uma compreensão equivocada do que são consequências e sua relação com as respostas de um indivíduo. Ou seja, uma confusão sobre o que caracteriza comportamento operante. Espero ter contribuído para diminuí-la, ao menos parcialmente. No próximo post da série Primeiros Passos, falarei mais sobre os reforçadores.

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