Pistas visuais: a importância do quadro de rotina visual

Pistas visuais: a importância do quadro de rotina visual

Em um capítulo do mais recente livro lançado por Temple Grandin, O cérebro autista – pensando através do espectro, Temple examina com detalhes três tipos de pensar: verbal, visual e por padrões. Embora a discussão do capítulo mereça, por si só, outros posts, me deterei em um tipo de pensar descrito por ela: por imagens (visual). A literatura científica e, especificamente, diferentes pesquisas em Análise do Comportamento destacam a importância de estratégias e procedimentos visuais para o ensino e desenvolvimento de diferentes habilidades para os indivíduos com TEA.

Uma de extrema importância é o Quadro de Rotina Visual. Algumas famílias e equipes me questionam, inicialmente, sobre a relevância desse procedimento. Relatos como “ele já sabe o que faz durante o dia”, “ele já conhece a rotina dele”, “ela não se importa muito com a mudança de rotina, lida bem”, “ela já sabe da rotina dela só de falarmos o que ela fará”, etc., são comuns. Entretanto, parte significativa das crianças com TEA demonstra dificuldade com cancelamento ou inclusão de novos compromissos e/ou atividades no seu dia a dia. Além disso, também podem, eventualmente, apresentar comportamentos disruptivos ao pedirem por certa atividade de interesse (por exemplo, parque, piscina) e não terem acesso a ela por conta de outros compromissos naquele momento.

Oriento a aplicação do procedimento de quadro de rotina para toda criança que atendo, desde o início da Terapia ABA. Mesmo para aquelas que já conhecem e se adaptam relativamente bem às mudanças de rotina. Isso porque o quadro visual tem muitas funções e pode ser utilizado para desenvolver diversas habilidades. A criança pode aprender a partir do Quadro de Rotina Visual:

  1. Compreender noção de passagem do tempo: pode começar com término de uma atividade e início da seguinte. Com o desenvolvimento do procedimento, a criança aprende noções: manhã/tarde/noite; dias da semana (segunda, terça…); dias do mês (01, 02, 10…); horas.
  2. Compreender noção de sequenciamento: a criança aprende que seu dia a dia é organizado, que existe uma lógica, um padrão (aproveitando o ensejo para destacar o pensamento por padrões descrito por Grandin, em um nível específico, claro. A descrição da autora é mais ampla) inerente às atividades realizadas por ela.
  3. Compreender e aceitar melhor eventuais mudanças de rotina: a criança percebe visualmente que mesmo havendo mudança momentaneamente, a lógica/padrão  principal da rotina não foi alterada.
  4. Aceitar melhor combinados ou que não é momento de alguma atividade de interesse: a criança pode aceitar melhor quando a mãe diz e mostra que naquele momento não é hora da natação e sim de outra atividade. Também é possível, diante da impossibilidade de fazer o que a criança quer imediatamente, propor outra atividade de interesse que possa substituir aquela desejada.
  5. Comunicar o desejo de realizar alguma atividade de interesse ou de não realizar alguma atividade programada: a criança tem direito de pedir ou de recusar alguma atividade. E mais, ela tem o direito de comunicar isso da forma mais clara, direta, compreensível e com menos frustração possível. O quadro pode facilitar isso. Já acompanhei crianças que chegaram a pegar a foto da atividade de interesse e elas mesmas colocaram no quadro, num claro pedido por aquela atividade. Fazer isso em vez de chorar, gritar, se bater ou emitir qualquer outro comportamento disruptivo já é uma grande vitória para ela e para a família.
  6. Prever eventos e situações vivenciadas no dia a dia: a criança consegue, literalmente (pelas imagens organizadas em sequência), enxergar essa previsibilidade e, com isso, se sentir mais segura.

Esses são alguns dos comportamentos-alvos trabalhados por meio do Quadro de Rotina Visual. Como todo programa de aprendizagem desenvolvido sob o método fundamentado na ABA, ele precisa ser claramente descrito (objetivos, comportamentos-alvos a serem desenvolvidos) e monitorado via registros adequados.

Veja alguns exemplos confeccionados por famílias que atendo:

O layout do quadro pode variar, mas precisa ser coerente com os objetivos do programa, ou seja, com os comportamentos-alvos a serem desenvolvidos a partir dele. Se você fizer uma busca no Google encontrará outras possibilidades, bem interessantes e criativas. Desde que atendam aos objetivos do procedimento, são sempre bem vindas!

É importante também garantir o Quadro de Rotina Visual na escola sempre que houver necessidade e abertura da equipe. Volto a ressaltar: a escola é um espaço importante de generalização dos comportamentos aprendidos no ambiente de terapia ABA. Por isso, a participação da equipe escolar é fundamental e todo procedimento a ser implementado nesse ambiente precisa ser bem conversado e combinado para que o processo de generalização ocorra efetivamente. Falaremos mais sobre isso em publicações específicas.

Mais do que sair aplicando essa ou aquela estratégia, busque informação, converse com o profissional que atende seu filho. Veja com ele se cabe a introdução desse procedimento na intervenção proposta e acompanhe o desenvolvimento dos comportamentos-alvos. Todo pai e mãe tem direito e a responsabilidade de garantir a terapia ABA de melhor qualidade para seu filho.

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