O diagnóstico médico e a avaliação comportamental

O diagnóstico médico e a avaliação comportamental

Cada mãe e pai de uma criança com TEA conhece o processo lento, intenso e extremamente carregado de emoções (de diferentes tipos) de um diagnóstico médico. Já acompanhei (e ainda acompanho) muitas famílias nesse caminho e, mesmo não vivendo diretamente essas emoções, empatizo muito com cada sentimento dos familiares. Por vezes, algumas etapas diagnósticas demoram anos e, em alguns casos, o resultado não é 100% esclarecedor (não por incompetência do processo, mas por conta das inúmeras variáveis em jogo na determinação do quadro da criança).

Um diagnóstico bem delimitado garante informações preciosas sobre necessidade e tipos de medicação adequados para a criança, sobre o processo de intervenção profissional melhor ajustado para aquela criança e, eventualmente, características de prognóstico. Ou seja, é de extrema importância e precisa ser realizado por um profissional bem capacitado.

Algumas famílias preferem esperar o resultado diagnóstico para iniciar uma intervenção planejada (qualquer que seja ela) para garantir o desenvolvimento máximo de seu filho. Outras, entretanto, acabam procurando diferentes tipos de intervenção profissional, paralelamente ao processo diagnóstico. Na minha prática profissional, vejo esse segundo movimento acontecendo cada vez com mais frequência. Isso é ótimo, pois quanto antes iniciada a intervenção, melhores os seus efeitos sobre o desenvolvimento da criança.

Um aspecto importante a ser entendido é que diagnóstico e terapia ABA são processos complementares, mas que caminham de forma independente um do outro. Ou seja, os pais não precisam (e nem podem, na minha opinião) esperar o fechamento do diagnóstico para iniciar a estimulação necessária para seu filho. Quanto antes essa estimulação começar, mais consistentes serão os resultados sobre o desenvolvimento da criança. No caso da terapia ABA, existem, inclusive, alguns modelos de intervenção precoce bem planejados e estruturados (falarei sobre isso em posts futuros).

Outro aspecto crucial para a boa qualidade da terapia ABA é o processo de avaliação comportamental. Existem dois momentos de avaliação: (1) inicial e (2) continuidade do processo de intervenção. Neste post descreverei com mais detalhes o primeiro. A avaliação ao longo do processo de terapia ABA será tratada em outras publicações, mas já adianto que ela é extremamente importante para a boa condução do processo de intervenção.

A avaliação comportamental inicial tem como principais objetivos:

  1. Delimitar comportamentos-alvos a serem desenvolvidos: habilidades importantes para a criança interagir ativamente com diferentes ambientes e que ainda não fazem parte de seu repertório;
  2. Delimitar comportamentos-alvos a serem minimizados: por exemplo, estereotipias e comportamentos disruptivos (socialmente inadequados);
  3. Delimitar comportamentos-alvos a serem maximizados: habilidades que a criança já apresenta, porém ainda em contextos e situações restritas.

Além disso, a avaliação inicial também tem como objetivo identificar variáveis ambientais das quais os comportamentos-alvos são função. Isso significa que o analista do comportamento precisa identificar que aspectos do ambiente da criança (pais, familiares, casa, escola, profissionais, etc.) estão mantendo certos padrões de comportamentos (por exemplo, comportamentos disruptivos). Para tanto, esse profissional observa a criança em seus ambientes naturais de vida (casa, escola e outros ambientes significativos), além de avaliá-la no setting terapêutico. Por definição, uma avaliação comportamental não pode ficar restrita às observações de consultório. O planejamento da terapia ABA depende desse processo complexo de observação.

Em uma avaliação comportamental coerente com os princípios da ABA, o analista do comportamento observa desde o que chamamos de comportamentos pré-requisitos até comportamentos inerentes ao brincar, ao contexto acadêmico e à autonomia da criança, além de comportamentos relacionados à comunicação e interação social. Alguns exemplos de cada tipo:

  1. Pré-requisitos: contato visual (estabelecimento e manutenção), imitações, seguimento de instruções, emparelhamentos, identificações;
  2. Brincar: compartilhar objetos, faz de conta, imitações, compartilhar emoções e sentimentos durante as brincadeiras, etc.;
  3. Pré-acadêmicos e acadêmicos: identificação de números, identificação de letras, treino grafomotor, alfabetização, etc.;
  4. Autonomia: atividades de vida diária, controle de esfíncteres, atividades de autocuidado, etc.;
  5. Comunicação e interação social: nomeação de objetos, nomeação de pessoas, pedidos de itens de interesse, conversação, expressão de sentimentos/emoções, reconhecimento de sentimentos/emoções (da própria criança e de outras pessoas), etc.

Você pode estar pensando “nossa, quanta informação!”, principalmente porque utilizei vários termos técnicos nesta publicação. Parece complicado porque o processo avaliativo é extremamente complexo mesmo. Não é somente uma impressão. Mas você não precisa se preocupar com os termos técnicos (eu sempre deixarei isso claro, aqui). Basta entender a complexidade dessa parte do trabalho na terapia ABA. Isso já será suficiente, inclusive, para avaliar o próprio trabalho do profissional escolhido para ajudar seu filho.

Nos próximos posts, falarei mais sobre a avaliação comportamental nos diferentes ambientes (consultório – setting clínico, casa e escola) e como é feita a observação e delimitação dos comportamentos-alvos em cada um deles. Não perca! Até lá!

 

 

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