A importância dos reforçadores arbitrários e a transição para reforçadores sociais na Terapia ABA aplicada aos TEA

A importância dos reforçadores arbitrários e a transição para reforçadores sociais na Terapia ABA aplicada aos TEA

Vimos na série PRIMEIROS PASSOS o que são reforçadores. Você já compreendeu que, por definição, reforçador é um estímulo consequente à resposta e que produz aumento de frequência de respostas semelhantes a que foi reforçada primeiramente. Acho que só não destaquei que tudo, absolutamente tudo que fazemos no dia a dia com alta frequência é mantido por reforçadores. Sim, o conceito de reforçador não é especifico para o trabalho com os TEA. Vale para o comportamento de qualquer pessoa, em qualquer situação. Se você se mantém fazendo o que faz é porque esses comportamentos são continua ou intermitentemente reforçados (mais para frente falaremos sobre os esquemas de reforçamento).

Uma parte extremamente significativa dos nossos comportamentos é mantida por reforçamento social, por vezes muito, muito sutil. Outros comportamentos são mantidos por consequências inerentes a eles mesmos. Por essa razão (e também por outras), ouço com frequência questionamentos sobre por que utilizar reforçadores tão arbitrários na Terapia ABA (em casa e/ou na escola). Perguntas do tipo “mas precisa dar esse carrinho para ele toda vez que responde a uma demanda?” ou “quando ele vai parar de precisar do reforçador na escola?” são feitas constantemente.

A literatura sobre tipos de reforçadores é complexa. Porém, acredito que pelo menos dois deles sejam importantes para entender a coluna vertebral do método da ABA aplicado aos TEA: reforçadores intrínsecos (ou naturais) e reforçadores extrínsecos (ou arbitrários).

Os reforçadores intrínsecos (naturais) são aqueles inerentes às respostas de um indivíduo, produzidos naturalmente por elas. Por exemplo: uma criança que relata gostar de ler, está descrevendo uma relação natural entre a resposta de ler e a consequência de saber mais sobre determinado assunto. Se eu observo que essa criança passa boa parte de seu tempo com um livro nas mãos e comenta trechos dele com alguém, eu posso afirmar com alguma certeza que a leitura é, por si só, reforçadora para ela (na verdade para os comportamentos que ela emite diante dos livros).

Os reforçadores extrínsecos (arbitrários) são aqueles disponibilizados artificialmente como consequências de determinadas respostas. Utilizando o mesmo exemplo da criança que lê, se ela o faz porque precisa tirar uma boa nota para passar de ano, eu posso afirmar que esse comportamento está sendo mantido por reforçadores arbitrários (a nota). Um valor de 0 a 10 atribuído ao comportamento de ler não é uma consequência natural dessa resposta.

No contexto da intervenção sobre TEA, precisamos relembrar que um conjunto de  dificuldades centrais do diagnóstico está em habilidades mantidas essencialmente por reforçadores sociais, sejam naturais ou arbitrários. Uma criança diagnosticada dentro do espectro autista pode apresentar dificuldades, por exemplo, em pintar um desenho ou fazer um boneco de massinha, seja pelas atividades em si, seja porque a professora prometeu uma estrelinha para o desenho mais bonito (não estou considerando aqui eventuais dificuldades de habilidade de coordenação motora fina, ok?).

Quando falamos de interesses restritos dentro do diagnóstico de TEA estamos especificando, ao menos em parte, um conjunto de potenciais reforçadores para os comportamentos dos indivíduos diagnosticados. Geralmente relacionados a dimensão sensorial deles (uma cena de um desenho, um som, luzes, coloridos, músicas e desenhos animados específicos, objetos que giram, etc.). Pouco ou quase nenhum desses estímulos reforçadores (potencialmente) tem característica social.

Por isso, um dos procedimentos utilizados na terapia ABA para o ensino de habilidades é parear (aproximar) estímulos que já são reforçadores (geralmente relacionados ao sensorial) para a criança com estímulos consequentes sociais e como consequência de respostas sociais. Por exemplo: o terapeuta ABA programa que diante da demanda pintar um desenho, a resposta de pintar será consequenciada por um carrinho (que a criança gosta muito, principalmente de girar as rodinhas dele) + elogio (o elogio varia de criança para criança). O carrinho não é uma consequência social (nem natural, nem arbitrária da resposta de pintar. Pelo menos não vemos na nossa cultura, as crianças na escola ganhando carrinhos como consequência de pintar desenhos. É mais comum elas ganharem estrelinhas, notas, etc.). O elogio é uma consequência social arbitrária (conforme definição acima). A lógica do procedimento é que, conforme apresentação simultânea do carrinho + elogio, o segundo passe a adquirir funções reforçadoras tanto quanto o primeiro. O esperado é que, após um período de pareamento, a criança comece a pintar o desenho em função do elogio da professora e não mais pelo carrinho.

É por essa razão que os reforçadores arbitrários não sociais são tão utilizados na terapia ABA. O objetivo principal não é o ensino artificial de uma habilidade. Pelo contrário, estamos tentando garantir o máximo possível um ambiente de aprendizagem reforçador para a criança. Ainda que no começo (e por um tempo indeterminado e enquanto for necessário), as consequências programadas sejam muito, muito artificiais e mais arbitrárias do que aquelas com as quais estamos acostumados a lidar.

E então você pode me perguntar: e como ficam os reforçadores intrínsecos/naturais? No exemplo da criança que passa a pintar o desenho pelo elogio da professora e não mais em função do carrinho, quando ela passa a pintar o desenho pelo “prazer” de pintar? Bom, essa é uma excelente questão e posso adiantar que depende do arranjo de outras variáveis ambientais. Afinal de contas, nem todo mundo que pinta um desenho o faz pelo simples “prazer” de pintar, não é mesmo? Sem dúvida, essa é uma questão a ser respondida em muitas outras publicações. Até lá!

 

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